Margaridinha-da-campina: uma nova e ameaçada espécie de planta da Amazônia maranhense

Por Lucas Cardoso Marinho

O Brasil é mundialmente reconhecido pela sua vasta biodiversidade. Ao assistir um filme hollywoodiano, sempre são representadas as florestas e a riqueza de animais e florestas que temos por aqui. Essa é a nossa cara! Essa “vitrine ambiental” pode nos levar a pensar que todas as espécies de plantas, animais e fungos que ocorrem no Brasil já foram catalogadas e são plenamente reconhecidas pela ciência, que todos os animais possuem um nome popular e que todas as plantas têm uma utilidade econômica. Esse pensamento se manifesta em conversas casuais e diante de informações pouco claras em programas televisivos e redes sociais.

O fato é que uma porção considerável da biodiversidade brasileira ainda é desconhecida para a ciência e, quando uma dessas espécies é descoberta, a chamamos de “espécie nova”. Uma espécie nova é aquela que ainda não foi formalmente descrita pela ciência e, sendo assim, não possui um nome científico apropriado. Em um país megadiverso como o Brasil, ainda é comum encontrarmos espécies novas, especialmente em grupos com grande diversidade, como plantas e insetos. Aves e mamíferos, embora bem conhecidos, também nos presenteiam com algumas espécies novas, normalmente oriundas de áreas remotas do Brasil.

Nessa perspectiva, a produção de listas de espécies — sejam elas de animais, fungos ou plantas — continua sendo a maneira mais eficaz de catalogar as espécies de uma determinada região. Esse trabalho é feito pelos taxonomistas. Além do reconhecimento das espécies, os taxonomistas contribuem para a compreensão da real distribuição desses organismos e, consequentemente, o seu estado de conservação.

Algumas espécies estão mais vulneráveis em áreas de tensão entre biomas, como por exemplo, a extensa faixa de transição entre a Amazônia e o Cerrado, conhecida no Brasil pelo terrível nome de “Arco do Desmatamento”. O nome é autoexplicativo e deixa claro a situação desta região que corta desde o estado do Mato Grosso até o Maranhão. — Mas por que estas regiões são tão sensíveis? São inúmeros os motivos, os quais incluem a vulnerabilidade dos bordos florestais e a ausência de leis específicas para estes territórios. No Maranhão, por exemplo, onde a Amazônia compartilha seus limites com o Cerrado, a floresta tem dado lugar a pastagens e monoculturas, além de sofrer intensamente com o fogo. Foi em uma destas áreas, em remanescentes florestais dos municípios de Carutapera e Boa Vista do Gurupi que foi coletada, pela primeira vez, a margaridinha-da-campina.

A margaridinha-da-campina, ou Calea breviflora, é um subarbusto da família das Asteraceae, a mesma família do girassol, cravo e margarida. Até janeiro de 2025 esta espécie não era reconhecida pela ciência e foi publicada como uma espécie nova. Ela ocorre em áreas de campinarana, um tipo de vegetação associado à Amazônia, mas que possui o solo arenoso, de coloração branca, e muito ácido, o que faz com quê as plantas que crescem sobre essa área sejam profundamente adaptadas à estas condições. Nesse sentido, as espécies que ali ocorrem são, em sua grande maioria, especialistas neste tipo de solo e não são encontradas em nenhum outro lugar.

As campinaranas do Maranhão estão sob constante ameaça e com elas, todas estas espécies endêmicas (que só ocorrem ali). A região onde a Calea breviflora pode ser encontrada vêm sofrendo com o desflorestamento para criação de gado e retirada continua de areia, tornando-a criticamente ameaçada. Isso nos faz pensar em quantas espécies de animais, plantas e fungos já podem ter desaparecido sem nem mesmo terem sido vistas. Com essa reflexão na cabeça e o desejo de mudança, os taxonomistas continuam o seu trabalho e lutam, com as armas que possuem, para desvendar o véu que cobre a biodiversidade brasileira.

SILVA, MIZALENE SILVA DA, VINICIUS RESENDE BUENO, ANDRÉ VITO SCATIGNA, and LUCAS CARDOSO MARINHO. 2025. “Calea Breviflora (Asteraceae): A New Species Endemic to White Sand Ecosystems of Easternmost Amazon, Maranhão, Brazil”. Phytotaxa 682 (1):91-100.